CAPOEIRA
ANGOLA
Indefinível.
É assim que muitos se referem à Capoeira Angola.
Definir o indefinível, é algo impossível,
mas falar sobre a Capoeira Angola é algo que vou tentar
fazer e tomara que eu consiga! Praticada pelos escravos camuflada
de dança, a capoeira de Angola ou brincadeira de Angola
como era chamada, fincou raízes no Brasil e se expandiu
de modo intenso, tornando-se impossível de ser erradicada,
como muitos tentaram fazer. Muitos entendidos no assunto da Capoeira
Angola dizem que ela foi criada com inspiração e
modelo no "N'GOLO", uma dança que os negros angolanos
praticavam imitando movimento dos animais que os cercavam nas
tribos, onde viviam, imitavam movimentos dos ani mais que os cercavam
nas tribos, onde viviam, imitavam movimentos como os das zebras,
crocoldilos, avestruzes, macacos, leões, etc. Porém,
a maior parte destes movimentos imitados das zebras, e portanto,
esta dança também era chamada de "Dança
da Zebra" e era praticada em forma de campeonato, pois para
merecer o amor e ter direito a se casar com a filha do chefe da
tribo, era preciso que os rapazes fossem os melhores na disputa
da dança. O vencedor era chamado de guerreiro e tinha direito
a cortejar a fil ha do chefe da tribo como prêmio à
sua vitória. No Brasil, esta dança foi a inspiração
que os escravos tiveram para poder camuflar os treinos de capoeira
(luta) na frente dos feitores dos engenhos pois, vendo que eles
faziam uma roda no terreiro da senzala, tocavam berimbau e cantavam
músicas africana s que os feitores não entendiam
a letra. Pensavam: - estão só se divertindo.....
E assim deixavam que os escravos fizessem a "brincadeira
de angola" (assim chamada por ser a maioria dos negros de
origem Angolana, da tribo bantu, de onde veio também o
beri mbau). Resistente ao tempo e aos destruidores, a capoeira
Angola encontrou na Bahia seu maior expoente humano, Mestre Pastinha,
que aprendeu, praticou, ensinou e difundiu esta arte por todo
lugar quanto lhe foi possível e até hoje seus ensinamentos
são seguidos á risca por todos os seguidores do
jogo de Angola. Mestre Pastinha dizia: "Capoeirista não
é aquele que sabe movimentar o corpo mas, sim, aquele que
deixa o corpo ser movimentado pela alma.". Segundo o escritor
Dias Gomes, a capoeira Angola é uma arte e o angoleiro
um verdadeiro artista. É um encanto, uma magia, é
ginga e o capoeirista coloca seu corpo como um instrumento desta
arte. É a própria harmonia entre corpo, mente e
o universo que os rodeia, do qual somos parte. Quem atingir sua
essência, certamente evoluirá mais rapidamente.
"TODU
MUNDU PODI APRENDÊ, INTÉ U SINHÔ DOTÔ0
PERCURI U SINHÔ PASTINHA, ELE É U PROFESSÔ!"
(Todo mundo pode aprender, até o senhor doutor, procure o
senhor Pastinha, ele é o professor)
Síntese
Filosófica da Capoeira Angola
A
filosofia e a visão da capoeira está nas ladainhas,
chulas e corridos, ou seja, nas canções. Além
disso, os ditos populares são transmitidas oralmente do mestre
para o discípulo assim como os cântigos. Temos na figura
de Mestre Pastinha um dos maiores codificadores da filosofia da
capoeira Angola, e o Mestre diz: "-Cada um é cada um".
Podemos definir agora o que seja a ladainha, a chula e o corrido
com suas devidas colocações na roda de capoeira Angola.
"Menino
quem foi teu mestre?
Meu mestre foi Salomão.
Sou discípulo que aprende,
e mestre que dá lição.
O segredo de São Cosme
só quem dá é São Damião..."
(...)
Isto
é uma parte de uma ladainha, é como se fosse uma reza.
A ladainha é cantada pelo mestre ou aluno graduado da roda
antes do início do jogo, na abertura da roda. Durante a execução
da ladainha não se joga e nem se bate palmas, é um
momento de concentr ação para os dois jogadores que
estão ao pé do berimbau esperando a senha para o início
do jogo, é neste momento que se absorve toda a força
dos fundamentos que estão sendo cantados. A chula nada mais
é mais é que uma pequena canção que
é executada após ser cantada uma ladainha ou corrido.
É complementar para o côro da roda. A chula também
pode ser uma cantiga única com princípio, meio e fio
do assunto contado em pequenas frases segu idas de um refrão.
"Viva
meu Deus,
Iê, viva meu Deus, camará!
Ê viva meu mestre
Iê, viva meu mestre, camará!
Isto
é uma chula que normalmente é "inserida"
improvisada no final das ladainhas. É uma chula de louvação
onde a palavra "IÊ" é sempre usada para chamar
a atenção sobre a louvação que é
feita e repetida. É como se o coro dissesse: - Atenção,
viva meu mes tre, camará! Numa chula de louvação
é de praxe louvar a Deus em primeiro lugar, depois o mestre
dono da roda, ao mestre que ensinou a capoeira ao cantador e depois
disso louva-se ou reverencia-se a quem ou ao que quiser, tudo é
um improviso. É na chula de uma ladainha que está
o desafio, o segredo e a senha para o início do jogo. Porém,
estes segredos contêm em seu íntimo toda a mandinga
e os fundamentos do jogo de Angola, e revelá-los é
coisa para os mestres. O mundo, o universo, o círculo místico,
a roda de capoeira, a mandala, onde tudo se transforma, onde exercitamos
nossa ação e reação diante da vida.
Após o canto da ladainha e chula é que se inicia o
jogo, durante o qual são cantados os corridos e outros tipos
de canções que também são repletos de
significações e códigos ou simplesmente narram
fatos do dia-a-dia ou do acaso. A característica de um corrido
é que o côro repete sempre a mesma frase ou verso,
numa melodia contínua e ritmada, o que acaba criando uma
vibração coletiva que funciona como um "mantra"
que vai unindo a roda como um todo, atingindo quem canta, quem joga
, quem vê, quem toca e quem ouve. Por isso, o côro,
juntamente com os músicos e a firmeza dos jogadores são
os elementos básicos fundamentais responsáveis pelo
"AXÉ" da roda. Na capoeira Angola, o ritmo e o
canto são os elementos pela ligação do corpo
com o espírito assim como nas artes marciais orientais onde
a respiração e a concentração integram
corpo e mente.
A
Resistência da Capoeira Angola
A
Capoeira Angola é a forma mais primitiva e tradicional da
capoeira brasileira. Porém, com o tempo, ela foi perdendo
aos poucos o espaço já conquistado. Seus mestres e
seu povo foram impedidos de praticá-las. É certo porém,
que os golpes da primitiva br incadeira de Angola são suficientemente
vigorosos e perigosos para legitimá-la como arte marcial
de alto nível, como disse um escritor... "A capoeira
Angola é o Tai Chi Chuan com tempero de dendê".
Ela dispensa qualquer acréscimo inútil que só
servem para despojá-la de suas artimanhas, fundamentos e
recursos seculares.
A
chamada de Angola ou Passo à Dois
A
chamada de Angola ou Passo à Dois é um movimento que
existe somente na capoeira Angola. É um passo ritmado onde
um jogador "chama" o outro com os braços abertos
em cruz e o outro jogador tenta desfazer este movimento, ou seja
esta chamada cuidando semp re para não ser atingido de surpresa
por um golpe inesperado, criando uma espécie de suspense
no jogo trazendo encanto e beleza, ponteados de malícia e
perigo na luta. Neste movimento aparece claramente as regras do
jogo de capoeira Angola e o praticante tem que conhecê-las
e saber usá-las com precisão e destreza. Um capoeirista
"nunca" deve dizer que "sabe" fazer uma chamada
de Angola, pois com certeza estará dando um passo adiante
do que as pernas suportam. Além do mais ele poderá
e será considerado um pretencioso pois, o próprio
Mestre Pastinha que morreu aos 92 anos dizendo que ainda "não
sabia" tudo da capoeira Angola. Imagine, então, um capoeirista
que ainda não atingiu nem a metade do seu aprendizado d izer
que "sabe" alguma coisa da capoeira Angola.
Os
elementos da capoeira Angola
A
capoeira Angola é um grande e complexo aglomerado de elementos
fundamentais que no seu todo formam uma imensa rede da qual só
se tem o conhecimento "parcial" pois, por mais que se
aprenda, sempre tem-se mais para aprender e por mais que se diga
que "sa be" menos se sabe do que se diz. Mestre Pastinha
dizia que a capoeira Angola é uma luta e luta violenta. Ou
joga-se prá valer ou apenas faz-se uma cena, um faz de conta
prá turista admirar. A possibilidade de enquadrar a Capoeira
Angola em regras esportivas é um mero sonho. Quem disser
que isso é possível, está sendo leviano e mentiroso
ou então não conhece nada de capoeira.
Os
Golpes
Dentro
da prática da Capoeira Angola, existe um número bem
restrito de golpes mas que podem atingir uma harmonia enorme quando
integrados uns com os outros além de suas variações.
Os principais golpes da capoeira Angola são: cabeçada,
rasteira, rabo de a rraia, chapa de frente, chapa de costas, meia
lua e cutilada de mão.
A
Música
Numa
roda de capoeira Angola é fundamental haver três berimbaus
(gunga, médio e violinha), dois pandeiros, um reco-reco,
um agogô e um atabaque. O toque de Angola, característico
do jogo de Angola é um toque lento e cadenciado, tem um ritmo
triste, gemid o, sofrido, que "diz" tich... tich... ton,
tim, tim, ton, (é a inversão do toque de São
Bento). A parte musical ainda tem as ladainhas que são cantadas
e repetidas em côro por todos que estão na roda.
O
Jogo
Mestre
Moraes disse: "-Capoeira é um diálogo de corpos,
eu venço quando meu parceiro não tem mais respostas
para as minhas perguntas." Os jogadores se benzem ao pé
do berimbau médio que fica no meio do trio e partem para
um tipo de balé, lento e rasteiro ao chão onde corpos
se perguntam e se respondem simultaneamente até que um terceiro
entre na "conversa" ou seja, "compre o jogo"
e assim o jogo segue até que todos os elementos da roda participem
do jogo.
A
Mandinga
É
o principal elemento do jogo de Angola. É a mandinga ou a
malícia que manda no jogo, cada jogador tem uma malícia
toda própria e cheia de artimanhas e segredos que ele não
revela a ninguém.
É
como diz aquela música
... a sua mandinga não me convém
a minha mandinga eu não dou prá ninguém
a minha mandinga eu não vendo, eu não dou...
A
mandinga é coisa que o angoleiro leva consigo por toda a
vida até o túmulo. Não é passada a ninguém,
nem ao filho ou ao discípulo mais dedicado de um mestre angoleiro
de verdade. Um mestre mandingueiro tem em sua concepção
de jogo uma variedade imensa de "firulas", trejeitos e
uma malandragem que o faz ir tem sem ido e quando o companheiro
pensa que não, ele já foi e já deu-lhe o golpe,
é esse "jogo de cintura" que faz a diferenç
a entre a capoeira Angola e outros tipos de arte marcial. A mandinga
é uma característica que não se aprende em
treinos, cada angoleiro faz a sua ao longo de toda a sua vida de
jogo de angola, e quando mais ele faz mandinga, menos se conhece
do jogo dele. Os Movimentos da Capoeira Angola O estilo Angola de
jogar capoeira, ou, a capoeira Angola, tem peculiaridades que não
se vê em arte marcial nenhuma. A capoeira Angola tem uma quantidade
pequena de movimentos e golpes que, apesar de serem poucos, atingem
uma harmonia inconfundível e complexa que engloba muitas
variações sobre o mesmo movimento ou golpe. Os golpes
da Capoeira Angola são basicamente a cabeçada, o rabo
de arraia, a rasteira, a chapa de frente, chapa de costas, meia-lua,
cultilada de mão. As movimentações e defesas
que são mais usadas são: negativas, rolê, cocorinha,
queda de rins, macaquin ho, duplo S, etc. Sempre movimentos lentos
e executados rente ao chão.
-
O perigo rente ao chão:
Mestre
Moraes (GCAP) diz: - "Capoeira é um diálogo de
corpos. Eu venço quando meu parceiro não tem mais
respostas para as minhas perguntas. O jogo de Angola é um
constante e repetido diálogo onde os capoeiristas se perguntam
e se respondem sucessivamente como se testassem um ao outro, de
forma lenta, concentrada e atenta. Executando movimentos lentos
e rasteiros ao chão, os dois se estudam e se ameaçam
continuamente e o primeiro que errar leva um golpe certeiro e mortal.
Embora seja um estilo vagaroso onde todos os movimentos são
calculados e comedidos. A capoeira Angola é extremamente
perigosa, podendo vir a ser mortal, se não for praticada
com atenção e cuidado. Uma das principais características
da capoeira Angola é e sta. Esconder o perigo sob movimentos
leves que mais se parecem com um balé.
-
A Malícia do Angoleiro:
O
verdadeiro angoleiro nunca abre completamente seu jogo para os parceiros.
Ele age como se tivesse sempre uma carta escondida na manga,um trunfo.
A malícia do angoleiro se faz ao longo de sua vida de capoeira,
nas rodas da vida, num eterno jogo. Malícia se forma dentro
da pessoa, não é um ensinamento de academia, nenhum
mestre ensina seu discípulo a ter malícia ou a ser
malicioso, isso vem dentro da pessoa e se desenvolve com o passar
do tempo e o sistema regrado de aprendizagem. Mestre Pastinha, o
pai da capoeira Angola, morreu com mais de 90 anos de idade e dizia
que ainda não sabia tudo da capoeira, principalmente que
ainda não havia desenvolvido malícia para se considerar
um angoleiro de verdade, sem dever nada a ninguém. Outra
coisa muito importante a respeito de malícia no jogo da capoeira
é NUNCA, JAMAIS, CONFUNDIR MALÍCIA COM MALDADE. Uma
coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa. |